Passar a vida na estrada é estar sempre correndo riscos. Com o caminhão servindo de casa e a estrada como terreno, não é nada fácil se sentir seguro. E é por isso que fé e a força nas orações muitas vezes podem ser uma forte aliada do carreteiro. No dia 25 de julho se comemora o dia de São Cristóvão, o Santo Padroeiro dos Motoristas, mas é preciso ressaltar que as devoções devem ser mantidas o ano todo. Além de São Cristóvão, outro santo bastante lembrado pelos carreteiros é Nossa Senhora Aparecida. O correto é dizer que a fé viaja sobre rodas e por conta disso é raro encontrar um caminhão que não esteja protegido por uma imagem.

Com a missão diária de levar e trazer cargas, nem sempre é fácil encontrar tempo para ir à missa e neste caso é mais fácil pedir proteção ao santo. É o caso de Jairo Neponuceno, 49 anos, que diz rezar todos os dias para São Cristovão. No caminhão, abençoado todos os anos nas tradicionais festas do padroeiro dos motoristas, ele carrega as imagens do santo e de Nossa Senhora Aparecida. Desde novo na estrada, ele vai seguindo a vida, sempre com muita fé.

Carreteiro há mais de 30 anos, Jairo Neponuceno pede proteção a São Cristóvão todos os dias e segue a vida com muita fé

Alex Ghettino, 29 anos, também acredita em São Cristovão e em Nossa Senhora Aparecida. E mesmo não comparecendo à missa, costuma benzer o caminhão sempre que pode. Com cinco anos de estrada, ele sempre pede proteção para os dois santos. Caso idêntico é o de Eduardo Gregório, 21 anos, que não abre mão de carregar os santinhos junto dele no caminhão, desde que ingressou na profissão, há dois anos. Mas não basta ter os santinhos, e é por isso que Adir Bosa, 55 anos, 35 de estrada, diz que vai à missa sempre que possível. “Quando não posso ir, minha esposa vai e reza pela família”, adianta. Adir também faz a sua parte e pede proteção para ele, sua família e seus companheiros de jornada.

Apesar de não ir à missa, Alex Ghettino diz ter muita fé em São Cristóvão e Nossa Senhora Aparecida e costuma benzer o caminhão

São Cristóvão nunca é esquecido, faz parte da vida e das orações daqueles que levam a vida na boléia. Mas, ele vem dividindo o posto com outros santos. Seu Adir conta que São Cristovão é o padroeiro, mas que ele tem muita devoção também em Nossa Senhora de Fátima. “É para ela que eu rezo todos os dias”, frisa. No caminhão carrega também Santo Expedito e Nossa Senhora Aparecida. “Eles têm dado força para gente, quem acredita vai longe, mas eu rezo para todos, Nossa Senhora de Fátima, Nossa Senhora Aparecida, Jesus Cristo, Santo Expedito, e com maior devoção a São Cristóvão, porque ele é o nosso protetor”, conclui.
Assim como existem pessoas que não abandonam nunca a devoção, muitos carreteiros já deixaram de acreditar nos santos. Eles até rezam de vez em quando, mas fé de verdade eles já não têm mais. O motivo é adoção de outras religiões e por isso abandonaram as santidades, porém ainda rezam para Jesus Cristo, pois mantêm a fé em uma força maior que os protege nas estradas.

Devoto de Nossa Senhora de Fátima, Adir Bosa acredita que as orações ajudam muito na estrada e diz que quando não pode ir à missa, a esposa vai e reza pela família

Robson Kussler, 27 anos, mora em Concórdia/SC, e é um exemplo dessa nova geração de carreteiros que carregam consigo outras crenças. Robson é Luterano e freqüenta a igreja com freqüência. “Não acredito muito em santos, mas mesmo assim acabo pedindo proteção a São Cristóvão, por ser ele o santo dos motoristas”, explica. Segundo ele, nunca benzeu o caminhão devido as viagens e a dificuldade de estar presente durante a procissão, mas quando tiver oportunidade pretende benzê-lo. Há cinco anos pela estrada, ele carrega Santo Antônio na carteira e a fé nas orações.

Carreteiro há dois anos, Eduardo Gregório não abre mão de carregar junto dele no caminhão imagens de santinhos

Mesmo que as crenças se modifiquem e que se perca o costume de pedir proteção a São Cristovão, a maioria dos carreteiros é católica e busca força nas orações. Até mesmo aqueles que dizem não acreditar acabam sempre se rendendo a algum tipo de proteção. Por mais que não se queira acreditar, pedir proteção é uma segurança a mais ao motorista.
Com o perigo sempre presente, os motoristas sofrem com estradas mal conservadas, assaltos e, muitas vezes, com os prazos que os obrigam a rodar à noite, com sono, tornando a estrada ainda mais perigosa. Na grande maioria, casados e com filhos, os carreteiros sabem que precisam trabalhar e também que precisam voltar aos seus lares sempre. E é nessa jornada que as santidades são aclamadas a fim de pedir segurança no volante.

Robson Kussler é luterano e freqüenta a igreja sempre que possível. Mas, quem o guia pelas estradas é Santo Antônio, cuja imagem está sempre em sua carteira

“Sou católico, mas não vou a missa. De vez em quando lembro de rezar, mas não carrego imagens no meu caminhão”, diz Arlindo Boza, 24 anos. Segundo ele, não há problema na falta de fé. Como única proteção, Arlindo benze o caminhão quando pode. Com quatro anos de estrada, ele segue o seu rumo acreditando apenas em si e na sorte.

Jocemir Jaques, 27 anos, cinco de estrada, também não se importa muito com a proteção divina. “Sou católico, mas não tenho fanatismo por santos”, conta. Porém, mesmo com pouca fé, diz que reza de vez em quando, “porque um pouquinho faz bem”. No caminhão ele carrega a imagem de São Cristóvão, porque é o padroeiro, e quando tem procissão também participa e pede para benzer seu caminhão.

Arlindo Boza é católico, mas não costuma ir a missa, também não reza muito. Como proteção, ele benze o caminhão quando pode

Quando a crença faz parte da vida, não é qualquer problema que vai enfraquecer o trabalhador. Nesse mundo cheio de armadilhas onde o trabalho é necessário, e muitas vezes cansativo e arriscado, a fé pode ser sim, a melhor saída.

Nas estradas e nas famílias dos carreteiros, São Cristovão é o mais lembrado. E como toda ajuda é sempre bem vinda, os carreteiros buscam forças também em outros santos e outras religiões. Só quem sobrevive a rotina das estradas é que sabe as dificuldades encontradas pelos motoristas e por isso se agarra as divindades que podem sempre olhar por eles.

Jocemir Jaques diz que é católico, mas não tem o hábito de ir à igreja. Diz não gostar muito de santos, mas leva no caminhão a imagem de São Cristóvão

Alguns acreditam com maior intensidade, outros apenas com resquícios de uma fé que se apaga, mas todos carregam no peito a certeza de que precisam seguir em frente, percorrendo por esse País repleto de costumes, climas e culturas.

Com informações de Denise Pacassa