O carreteiro solitário, que faz viagens longas e passa vários dias fora de casa na estrada, está diminuindo do mercado alemão. Análise realizada em 2016 pela Dekra Deutscher Kraftfahrzeug-Überwachungs-Verein – (Clube Automobilístico de Vigilância Alemã) sobre o mercado de trabalho da categoria no país, constatou que em 59% dos casos a procura é por motoristas para atuarem regionalmente. Em 2009 a procura por condutores regionais era de 41%. Já para viagens longas, inclusive fora do país, o índice chega a apenas 7%.

Os responsáveis por essa mudança são o comércio eletrônico e a estabilidade do mercado financeiro, que levam empresas a procurarem motoristas para atuarem regionalmente, dentro da Alemanha. Dados estatísticos apontam crescimento de 42% do mercado online no país entre 2012 e 2016, e a expectativa é de evolução de 12% em 2017.  Os dados em milhões apontam um crescimento de 42 % de 2012 até 2016.

Criei um serviço de entregas de legumes e frutas. O consumidor faz seu pedido pela internet e faço entregas direto do agricultor,  contou Thomas Schrott.

Não só grandes empresas são responsáveis pelo desenvolvimento do comércio eletrônico. Pequenos produtores e serviços regionais também ajudam a alavancar os negócios. “Criei um serviço de entregas de legumes e frutas. O consumidor faz seu pedido pela internet e faço entregas dos alimentos regionais, direto do agricultor para o consumidor final, contou Thomas Schrott.

O motorista tem de ser comunicativo, profissional e cumprir as necessidades exigidas pelo mercado, explica o gerente de serviços Hendrik Jansen

Com a nova realidade, a qualificação do motorista também muda. Isso porque o contato mais frequente com o cliente final exige boa aparência, boa expressão oral, confiabilidade e que saiba trabalhar bem em equipe. “Precisamos de condutores que sejam tanto comunicativos quanto profissionais que cumpram com as necessidades exigidas no mercado”,  disse Hendrik Jansen, gerente do setor de aprendizado e serviços da logística Dachser.

Wolfgang Hüttemann, 67 anos, há mais de 30 anos na profissão, lembra que o motorista combina com o consumidor o local e a hora da entrega e tem janela de tempo definida. “Quem trabalha no transporte regional tem de fazer as entregas no tempo combinado, se isso não acontece criamos uma imagem ruim com os nossos clientes e perdemos a confiança deles”, acrescentou Hüttemann.

No transporte regional temos de fazer as entregas no tempo combinado, para não perdermos a confiança dos cliente, disse Wolfgang Hüttemann

A segurança com o transporte, carregamento e descarregamento são itens de grande importância para o motorista, pois qualquer tipo de defeito na mercadoria – provocado pelo transporte – pode prejudicar a imagem da empresa. Também é importante entender o processo logístico do estoque pensar adiante quando for entregar ou retirar uma mercadoria. Por outro lado, com a tecnologia dos caminhões o trabalho ficou mais fácil, conforme destacou o motorista Michael Friez, 47 anos, 19 de profissão. “Hoje em dia temos navegador e internet a disposição, o que simplifica tudo”, disse, lembrando que conhecimento técnico continua sendo importante para quem deseja trabalhar na área.

Com a tecnologia existente hoje nos caminhões, o trabalho  ficou mais fácil. Temos navegador e internet à disposição, comentou Michael Friez

A falta de motoristas no mercado contribuiu para que a profissão se tornasse um pouco mais atrativa para pais de família. Trechos internacionais são feitos por empresas terceirizadas ou por filiais localizadas no exterior, onde não existe a falta de condutores. Os contratados geralmente vêm do Leste Europeu, mas essa prática tem recebido críticas da mídia.

Andrea Kocsis critica as condições de trabalho impostas aos motoristas do Leste Europeu que aceitam dirigir caminhões em viagens de longas distâncias

Tais condições de trabalho levaram a vice-presidente do Sindicato Verdi, Andrea Kocsis, (Die Vereinte Dienstleistungsgewerkschaft – Sindicato Unificado de Serviços) a criticar esse modelo de ocupação e a exigir mudanças tanto por parte das empresas quanto dos políticos.  Outro problema apontado por Andrea Kocsis é a exploração dos motoristas do Leste Europeu por parte da maior empresa de correios da Alemanha, a qual, segundo ela, contrataria trabalhadores de sub-empresas por um valor irrisório, caracterizando a exploração.

Uma das críticas é o descaso com a Lei que estabelece os descansos diários do motorista, os quais devem ser feitos em veículos adequados. Já os semanais podem ser fora da cabine. Nos finais de semana as carretas não podem rodar. E sendo assim os carreteiros são obrigados a passar o tempo de descanso dentro dos veículos, geralmente parados em um estacionamento.

“Outros Estados da União Europeia implementam as regras diárias de descanso e de período de repouso semanal regularmente. Na França, por exemplo, há multas elevadas tanto para o condutor quanto para a empresa para a qual ele está dirigindo. “Aqui isso não é controlado e nem sancionado, reclamou Andrea Kocsis.”

O carreteiro Casian Mircea, 27 anos de idade, da Romênia, permanece duas semanas na estrada e três dias em casa. Ele contou que passa os finais de semana no caminhão, mas para o seu chefe é indiferente se ele dorme no hotel ou no caminhão. “Eu prefiro o caminhão”, afirmou.

O carreteiro romeno Casian Mircea conta que há casos de motoristas que não precisam cruzar a fronteira e dirigem sem contrato de trabalho

Geralmente os motoristas do Leste Europeu trabalha três semanas ou mais sem pausa. Gunter Mulln, 63 anos de idade, admite conhecer colegas que vivem nessas condições. Explica que eles transportam quase de tudo pela Europa e ficam 14 dias em casa e três meses viajando. Além das condições de trabalho, as críticas recaem também sobre a remuneração e a inexistência de regulamentação. Segundo Andrea Kocsis, os condutores não têm contrato de trabalho escrito e muito menos um acordo salarial decente.

O veterano Gunter Mulln diz que conhece motoristas que chegam a permanecer várias semanas longe de casa viajando por toda a Europa

Casian Mircea acrescenta que há casos de o motorista trabalhar sem contrato de trabalho, mas observa que isso acontece somente quando se atua dentro do país, porque na fronteira é necessário apresentar documentação. “Se você atravessa a fronteira tem de ter contrato”, reforça.

O fato é que com as estradas internacionais não são mais atrativos para o motorista alemão. Além disso, há dois tipos de salários, um com valores que variam de 1.300 a 1.600 euros com jornada de trabalho pesada e os de 2.200 a 2.600 euros com uma jornada de trabalho mais amigável, que permite passar mais tempo com a família.

Por Wilgen Arone
Foto: Divulgação