Quando trafega pelos grandes centros urbanos do País, o motorista de caminhão tem uma grande quantidade de estabelecimentos prontos para auxiliá-lo em caso de qualquer avaria ou quebra do caminhão. A possível solução pode vir de oficinas mecânicas, unidades móveis ou da concessionária autorizada da marca do veículo, embora ao ouvir os carreteiros, a percepção que se tem é que hoje as empresas se preocupam cada vez mais com avarias e quebras dos veículos.

Manutenção preventiva e planejada, mais a facilidade de comunicação facilitou a vida do motorista e de toda a cadeia logística do transporte rodoviário, mesmo assim, ninguém está livre de possíveis problemas durante a viagem. Quando acontece, de simples reparos a problemas complexos, tudo pode ser solucionado. No entanto, quando o motorista se encontra em um local onde a cidade mais próxima está a dezenas ou centenas de quilômetros, as chances de o caminhão permanecer parado por quebra é consideravelmente maior.

O mesmo se aplica às rodovias. As que são concedidas à iniciativa privada, além de oferecerem melhores condições de rodagem, também se propõem a oferecer atendimento aos usuários. Ainda que o serviço prestado seja muitas vezes questionado pelos carreteiros, trata-se de uma opção em casos de parada do veículo por qualquer problema que exija intervenção para reparo.

Para entender melhor o papel do concessionário nesse contexto, reportagem da revista O Carreteiro consultou a Associação Brasileira de Concessionárias de Rodovias (ABCR) e sua atuação no dia a dia dos motoristas de caminhão. De acordo com a entidade, a disponibilidade de assistência 24 horas por dia aos usuários é o diferencial das rodovias privatizadas. Além disso, as pistas são monitoradas por câmeras e, em caso de socorro mecânico ou médico, é garantido o atendimento ao motorista, conforme está citado no contrato de concessão.

Adotado em 1996, o modelo de concessão de rodovias já providenciou socorro mecânico a mais de um milhão de usuários. A associação também reforçou o papel econômico e de zeladoria das concessões, afirmando que desde 1995 foram investidos cerca de R$ 45 bilhões em manutenção e R$ 50 bilhões em melhorias viárias.

De acordo com um estudo realizado pela ABCR, a cada R$ 1 pago nos pedágios, R$ 2,4 voltam em benefícios à sociedade, como iluminação e sinalização das rodovias, telefones de emergência ao longo das vias, além do investimento em tecnologias que visam agilizar o atendimento aos usuários.

A percepção que se tem é que hoje as empresas se preocupam cada vez mais com avarias e quebras dos seus caminhões. Isso se deve tanto em razão da segurança do motorista quanto dos prejuízos em decorrência de atrasos. Normalmente, manutenção é rotineira, planejada, existem planos de ação para situações de emergência e a comunicação é uma preocupação constante entre todos na cadeia logística, do motorista ao diretor, contribuindo para que as cargas cheguem ao destino final como previsto.

Porém, por tradição de quem está acostumado ao trecho, ou até mesmo por conhecer bem seu caminhão, muitos motoristas procuram resolver problemas por conta própria. Ou então, acionam o seguro, chamam socorro mecânico ou entram em contato com as respectivas empresas, apesar de existirem aquelas que proíbem o motorista de mexer no caminhão.

Se problema for um reparo menor, como uma mangueira, eu mesmo dou um jeito com minhas ferramentas, afirmou autônomo Antônio de Abreu

Na estrada, o assunto revela soluções e histórias inesperadas, embora o melhor contra quebras seja a manutenção preventiva, conforme lembra o autônomo Antônio Figueiredo de Abreu Neto, paulistano, de 58 anos e 33 no trecho. Acostumado a rodar com seu caminhão por São Paulo e interior paulista, prestando serviços a uma rede de supermercados, Abreu Neto diz que se nota algum barulho diferente do habitual corre para o mecânico de sua confiança.

“Se for um reparo menor, como uma mangueira solta, por exemplo, eu mesmo dou um jeito com as minhas ferramentas. Caso contrário, o mecânico faz toda a diferença, pois não posso ficar na mão”, afirmou Abreu Neto. Carreteiro de longa data, ele coleciona fatos ocorridos nas estradas. Recorda de um em que estava em Catanduva (Interior do Estado) e o seu caminhão começou a dar sinais de perda de potência, quando alcançava 60 km/hora. O problema estava na injeção eletrônica e o guincho da concessionária levou de volta à capital. Antônio é cuidadoso com o caminhão, e diz que o encosta de três em três meses para checkup completo.

O grupo no WhatsApp criado pela empresa onde trabalha faz a diferença nos momentos de dificuldade, destacou o carreteiro Lucas Silva Soares

O gaúcho de São Borja, Lucas Silva Soares, 32 anos de idade e quatro na profissão como empregado, transporta peças automotivas e alimentos entre o Brasil e a Argentina. Conta que uma das primeiras ações da empresa para a qual trabalha foi criar um grupo de ocorrências, abastecimento e RH no aplicativo WhatsApp. Garante que nos momentos de dificuldade faz a diferença. Explica que o primeiro passo é notificar o grupo, realizar a triagem do problema e esperar as coordenadas da diretoria, que vai tomar frente na condução da ocorrência.

A manutenção da frota é realizada a cada 30 mil km rodados. Na ocasião são feitas trocas de óleo, filtro e regulagem de caixa, entre outros itens. A cada 60 mil km rodados, o caminhão passa por revisão geral de componentes.

“Certa vez descendo carregado pela Serra do Azeite, em Cajati (SP), como o botão de suspensão do eixo é próximo ao da luz, acabei me confundindo e desci somente com os dois últimos eixos. Só percebi a confusão quando começou a sair fumaça do freio. Parei o caminhão no recuo da rodovia, baixei o eixo de novo e deixei os freios esfriarem, e só então segui viagem”, relembrou Lucas.

Leandro Ramiro disse que não tem autorização para realizar reparos no caminhão. Ao primeiro sinal de problema ele tem de ligar para a empresa

Carreteiro há 8 anos, o capixaba Leandro Ramiro, de 29 anos, é empregado e trabalha a bordo de um caminhão Volkswagen Delivery 8.150, ano 2004. Leandro diz que na empresa onde trabalha é instruído a ligar para os supervisores ao primeiro sinal de problemas no veículo. “Não temos autorização de realizar nem mesmo pequenos reparos. Em casos de suspeita de quebras, já pedem para estacionar. Se nada for detectado, sigo viagem”, diz Leandro. Afirma que a manutenção é rotineira na empresa, sendo feita a cada três meses. De acordo com Ramiro, os itens mais checados são óleo e filtro. Afirma também que o caminhão com o qual trabalha nunca o deixou na mão, por falhas ou quebras.

Na ocorrência de qualquer problema, a determinação da empresa é de procurar a rede autorizada do fabricante do caminhão, explica João Carlos Lucarazi

João Carlos Lucarazi, de 58 anos, carreteiro desde a década de 1980, trabalha como empregado transportando produtos cosméticos para países do Mercosul. Conta que no quesito manutenção, a empresa é muito bem estruturada. Nos casos de problemas no veículo, a ordem é para recorrer à rede concessionária do próprio fabricante, mas garante que isso dificilmente acontece, porque quando chega na matriz, ao final de cada viagem, o caminhão vai para a revisão. Acrescenta que a pressão do óleo do motor está entre os itens mais verificados, geralmente a cada 4 mil km. Ele conclui dizendo que a empresa tem uma unidade mecânica móvel que vai até o local onde está o veículo com problema.

Se o caminhão apresentar algum problema menor e estiver vazio, a orientação é recorrer ao guincho da seguradora ou acionar o mecânico, explica Welton Eliar

Welton Eliar, Natural de União da Vitória/PR, de 26 anos, cinco deles na estrada, trabalha como empregado, transporta verduras e móveis para os Estados de São Paulo, Goiás, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Diz que quando percebe que algo está errado, para e verifica o caminhão. Se  for constatado algum problema menor, e estiver vazio, recorre ao guincho da seguradora ou aciona o mecânico.

“Tenho chefe na empresa, mas o responsável pelo caminhão sou eu. Os custos são dele, mas tenho de me virar com o veículo. Há quinze dias, o caminhão ficou parado por quebra, e quando fui retomar as operações, houve nova avaria na válvula termostática, mas nesse caso foi facilmente resolvido”, contou, lembrando que a manutenção é realizada a cada 10 mil km, na qual são verificados os fluídos, juntas e freios.

Recorda que há cerca de três meses trafegava próximo a Curitiba/PR, por uma estrada sem sinal de celular, quando foi atingido por um pneu que se soltou do caminhão que seguia à sua frente. Como viu que apenas as mangueiras haviam se soltado, ele ficou da meia noite até às 3h00 arrumando a avaria por conta própria e seguiu viagem.

por Diogo Mendes