Apesar da discussão ser antiga, o roubo de carga continua liderando as queixas dos motoristas de caminhão. Os números com­provam o clima de insegurança na estrada. Em 2015, por exemplo, levantamento realizado pela NTC &Lo­gística apontou crescimento de 10% no total de ocorrências em comparação com 2014. Foram 19.250 registros ante 14.500 do ano anterior. O dano causado pelas mercadorias perdidas somou naquele ano R$ 1,12 bilhão.

Já em 2016, dados da Federação das Indústrias do Rio de Janeiro (Firjan) apontaram prejuízo na ordem de R$ 1,4 bilhão com este tipo de ação criminosa. Foram mais de 22 mil ocorrências, número 86% superior às cerca de 12 mil ocorrências registradas em 2011. Outro dado alarmante foi divulgado pelo comitê do setor de cargas do Reino Unido, ao considerar o Brasil o 8º País mais perigoso do mundo em relação ao transporte de carga, numa lista de 57 nações. Segundo o levantamento, transportar carga no Brasil é tão perigoso quanto no Iraque ou na Somália, países com conflitos armados há vários anos.

Para os carreteiros, profissionais que vivem toda essa insegurança no dia a dia na estrada, alguns fatores tiveram importância no aumento do número de roubo de carga no Brasil. Na relação consta a falta de fiscalização nas rodovias, ausência de pontos de paradas com infraestrutura adequada para o profissional cumprir a lei do Tempo de Direção e a crise econômica que provocou aumento do número de desemprego.

“Não temos lugar para estacionar o caminhão, portanto não há segurança. O Brasil está cheio de praças de pedágios, mas nenhuma delas oferece um local para o motorista encostar o caminhão”, reclamou Carlos Alberto Weder, 49 anos de idade e 17 de profissão, de Ijuí/RS, que faz a rota ente Uruguaiana/RS e São Paulo/SP.

As estradas estão cheias de praças de pedágio, mas nenhuma tem área de descanso, observa Carlos Weber

Weder conta que já sofreu duas tentativas de assalto e que em uma delas era para estar junto com a família na cabine. “Lembro que fui carregar polietileno em Mauá/SP e quando eu percebi os bandidos já tinham levado meu RodoAr. Tudo é deserto em São Paulo e as restrições nos obrigam a entrar na cidade de madrugada. Só podemos contar com ajuda de Deus”, desabafou.

O carreteiro lembrou de outros lugares perigosos na cidade, como em São Miguel, na região da Zona Leste. “Não há como se prevenir. Não temos lugar para parar. E nem conseguimos nos planejar para descarregar. Hoje em dia é inviável pegar um chapa na rua para te ajudar. Para haver mais segurança deveria ter mais policiais nas rodovias e lugares seguros como pontos de parada. Só podemos contar com Deus”, repetiu.

O chileno Luiz Celes, de Santiago, trabalha há mais de 30 anos no transporte e atualmente faz a rota Mercosul. Ele afirma que quando entra no Brasil se sente muito inseguro e diz que passa a contar com a sorte. “Os lugares onde sinto mais medo são no Rio de Janeiro e no centro da cidade de São Paulo. As cidades têm restrição de horário de direção, porém não oferecem infraestrutura adequada para  o motorista cumprir a lei. Não existe lugares seguros para parar”, reclama.

O chileno Luiz Celes diz que os lugares onde sente mais medo no Brasil são nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro

Para evitar de se tornar mais uma vítima do roubo de cargas, Luis Celes diz que planeja melhor suas viagens para o Brasil, verificando com antecedência os pontos onde pretende parar. Explica que no Chile é bem diferente. Apesar de ter horários para cumprir, o país oferece estacionamentos com banheiros e boa infraestrutura para os motoristas. Mesmo assim, roubos acontecem.  “Para falar a verdade, hoje o motorista fica à mercê da sorte. Para ter mais segurança é necessário ter trabalho para todos. Uma família que não tem renda acaba se marginalizando para se sustentar. Não adianta fiscalização se a sociedade não está justa”, opina.

Desemprego e falta de oportunidades contribuiram para o aumento dos roubos de carga, opina Dione Santos

Dione Santos Moraes, 33 anos de idade e oito de profissão, é de São Luiz Gonzaga/RS e também faz a rota internacional. Para ele, a crise, desemprego e a escassez de oportunidade contribuíram para aumentar o roubo de carga. “É mais fácil roubar o caminhão. Tem tudo o que as pessoas precisam para viver, alimentos, bebidas, remédios. Além disso, a falta de fiscalização nas rodovias e de ponto de apoio seguro para pernoitar facilitam ainda mais”.

Apesar da empresa se preocupar com a rota dos motoristas, Dione explica que para cumprir os horários estipulados na lei é necessário fazer paradas rápidas na estrada e é nesse momento que nem sempre encontra lugar seguro para fazer a pausa. “Após quatro horas dirigindo temos que pausar 15 minutos e nesse período o assalto pode acontecer. Sem contar que a maioria dos clientes de São Paulo preferem que a gente descarregue apenas de madrugada e isso também chama atenção. Para me proteger, além de rezar e pedir a Deus proteção, eu tento avaliar as minhas viagens para me programar e conseguir parar em postos com estrutura e segurança. A estrada virou uma loteria. Por isso temos que estar mais atentos”, aconselha.

Edezio Moraes lembra que foi assaltado em Minas Gerais quando transportava uma carga de farinha de trigo

O catarinense de Itajaí, Edezio Moraes, 46 anos de idade e 23 de profissão, relata que os roubos de carga aumentaram muito nos últimos anos. A falta de emprego é apontada por ele como um dos principais vilões do crescimento desse tipo de criminalidade. Quando começou na profissão, Edezio dizia que saia menos preocupado, sem medo de ser roubado. Hoje sai de casa com medo de que a 100 km alguma coisa aconteça. “Em 2003 fui assaltado em Patrocinio/MG. Era minha primeira viagem com bitrem e na época prestava serviço para um colega que tinha apenas um caminhão. Estava carregado de farinha de trigo. Os ladrões tiraram a “mão amiga” da carreta e quando desci para ver o que estava acontecendo já me encostaram o revólver. Levaram tudo. Me senti um lixo. Um deles ainda disse que sabia que tinha dois filhos, onde eles estudavam e a rua que eu morava. Eles ficaram comigo durante dois dias e me largaram no mato”, descreve.

Edezio conta que quando conseguiu buscar ajuda, acabou ficando uma semana detido em uma delegacia de Uberlândia/MG. “É nessa hora que temos que ter calma pois na delegacia você passa a ser considerado suspeito do roubo. O delegado queria que eu assumisse um delito que não havia não havia cometido. Depois acabaram descobrindo que eram os verdadeiros autores do roubo e eu fui liberado. Mas isso revolta”, lembra.

A PRF esclarece que o procedimento em flagrante de roubo de carga é, além da prisão de suspeitos flagrados na situação, o encaminhamento de toda situação, inclusive envolvidos, materiais e veículos que tenham relação com a ocorrência, à polícia judiciária responsável pela área do flagrante. Além disso, a informação de atendimento deste tipo de ocorrência alimentará sistemas de inteligência policial e também orientará o policiamento preventivo e o desencadeamento de ações específicas de enfrentamento da modalidade criminosa.

Tal procedimento também é adotado para os casos de sequestros, pois a polícia judiciária é que, a partir do momento do flagrante, evoluirá para a instrução processual e investigações necessárias. Cargas recuperadas são encaminhadas para polícia judiciária e a recuperação pelos donos deve ser mediada pela mesma polícia judiciária. Os canais oficiais da PRF estão abertos ao público geral, inclusive para informações sobre ameaças e crimes. O telefone de contato com a Polícia Rodoviária Federal, por padrão, é o 191, em funcionamento em grande parte do país.

Quando saio de casa não sei se volto, comentou Moisés Ferreira lembrando que antes não havia tantos roubos de carga

Moisés Ferreira de Moraes, 77 de idade e mais de 60 anos de profissão, Curitiba/PR, viajo o Brasil inteiro, carregando materiais pedagógicos. O veterano conta que no início da profissão tinham menos caminhões, com menos potência e o índice de roubo também era menor. “Hoje, quando saio de casa não tenho certeza se vou voltar. É muito roubo e acidentes. Temos que pedir proteção para Deus”. Para evitar ser assaltado Moisés  diz ser importante verificar com antecedência os lugares para parar e saber com quem conversa, pois antes existia mais camaradagem e agora não sabemos com quem conversar. “É mais estressante mas temos que saber levar. Nunca fui assaltado mas meu filho já foi. Ele estava perto de Uberlândia/MG e foi abordado pelos bandidos que o amarraram em um canavial e levaram o bitrem novinho da empresa. Graças a Deus não aconteceu nada com ele, depois recuperaram o veículo”, explicou.

Para Vinicius Munhoz, o trecho entre São Paulo e Curitiba é um dos mais perigosos

Vinicius Munhoz, 24 anos, 5 de profissão, Uruguaiana/RS, faz a rota Mercosul, transporta geralmente peças de veículos, e apesar de viajar para outros países garante que o local onde se sente mais inseguro é na rota de Curitiba para São Paulo. “Existe muito  trânsito e muitos casos nesse trecho. Eu nunca passei por isso, mas conheço vários colegas que foram assaltados e os bandidos levaram tudo. Para me proteger eu procuro me organizar para passar sempre durante o dia nessa região pois a noite é mais propício”. Ele explica que na Argentina e Chile é um pouco mais seguro pois tem menos caminhão e mais lugares para parar. No Brasil transitam muitas cargas de valor e o País não oferece pontos de apoio com infraestrutura para atender os motoristas.

A Agência Nacional de Transporte Terrestre (ANTT) informou que o Brasil tem cerca de 80 mil km de rodovias asfaltadas. Destas, apenas cerca de 10 mil km estão na responsabilidade da dela. Porém os motoristas e as empresas podem ter acesso a relação dos pontos de paradas (nas rodovias concedidas) e suas localizações através do link http://portal.antt.gov.br/index.php/content/view/41594/Pontos_de_Parada_e_Descanso.html. O restante das rodovias federais é de responsabilidade do Dnit.

Dicas para evitar o roubo de carga

Para o Cel. Paulo Roberto de Souza, assessor de segurança da NTC& Logística a falta de uma legislação mais específica para punir receptadores é um dos principais fatores que contribuem para altos índices de roubos de cargas registrados anualmente no Brasil. Ele alerta os motoristas sobre a importância de seguirem a risca o plano de gerenciamento de risco adotado pela a empresa a qual está prestando serviço. “Alguns profissionais querem fazer a sua própria rota e parar em locais que conhecem e encontram os amigos. Mas, nem sempre esta atitude é segura e pode facilitar a abordagem de criminosos. O ideal é seguir o plano da empresa que, geralmente, realiza o monitoramento e toma as dividas providências no caso de algum imprevisto”, destaca.