Após décadas na profissão, muitos carreteiros que ainda estão na ativa convivem com o cansaço de anos de estrada e a falta de certeza de poderem sobreviver apenas do dinheiro da aposentaria

Por Erik Valeriano

Pesquisa da Confederação Nacional dos Transportes (CNT), divulgada em 2016, teve como um de seus itens o perfil do motorista de caminhão brasileiro, no qual um dos pontos abordados foi a idade média dos profissionais.  De de acordo com o levantamento da entidade, a idade média apurada varia de 41 a 45 anos. No entanto, tem muita gente na estrada com idade acima dos 50, firme e forte no volante. Um dos fatores responsáveis é a aposentadoria, cujo valor recebido pelo motorista é insuficiente para se sobreviver, conforme constatou reportagem da revista o Carreteiro em conversa como motoristas.

Um desses carreteiros que já passou dos 50 é Eron Borges Vieira. Ele disse ter começado tarde na profissão, por volta dos 40 anos, e, atualmente, com 60, reconhece que a idade se tornou uma preocupação, mas não há outra opção a não ser seguir trabalhando. “Já estou cansado e tenho vontade de parar, mas não posso”, lamentou.

A idade preocupa Eron Borges, carreteiro que tem vontade de parar de trabalhar, mas não o faz porque tem dúvida se o valor que vai receber da aposentadoria vai permitir que ele deixe o caminhão

Na ocasião, Eron estava em um posto na BR-163, próximo à Rondonópolis/MT, fazendo a inspeção no caminhão para mais uma viagem com destino ao Estado do Paraná. Ele acredita que mesmo quando atingir o tempo necessário para se aposentar não sabe se vai conseguir deixar o caminhão. “É muito difícil sobreviver com salário mínimo, enquanto meu corpo a aguentar vou seguir nessa rotina”, completou.

Alguns quilômetros à frente da mesma rodovia, Egídio Dall Bello, que está prestes a completar 56 anos de idade, dos quais 35 são de profissão, esperava para carregar uma carga de adubo. Ia seguir para Primavera do Leste (MT), percurso curto, com cerca de 130 quilômetros. Egídio disse que seu corpo já deu sinais que está chegando a hora de parar, porém não qualquer previsão sobre quando isso irá acontecer. O motivo. Segundo diz, é ter permanecido muitos anos sem recolher a previdência. “Agora, mesmo cansado, tenho de continuar trabalhando, mesmo desmotivado com a realidade da profissão”, explicou.

Egídio Dall Bello diz que seu corpo já deu sinais de que está chegando a hora de parar, mas terá de continuar porque ficou muito tempo sem recolher aposentaria

Para continuar dirigindo e conduzindo com segurança, ele diminuiu as horas de viagem e só dirige durante o dia. “Quando o dia termina já estou parado, procurando recuperar o corpo e relaxando a musculatura. Não cometo excessos durante a noite, durmo cedo. Se não for assim o corpo não aguenta”, reconhece.

Durante a conversa com Egídio, um caminhão Scania, com mais de 30 anos de idade parou ao lado. Da cabine desceu o gaúcho da cidade serrana de Carlos Barbosa, Jandir Penta, um motorista de estatura média, que no período da safra de grãos na região Centro-Oeste passa maior parte do tempo na rota Sorriso/MT – Santos/SP. O assunto aposentadoria lhe interessou, principalmente porque já disse já ter completado 50 anos de idade.

A documentação da aposentaria de Jandir Penta já foi encaminhada e ele aguarda ansioso pela conclusão do processo, porém, não tem planos de parar de trabalharr tão cedo

Comentou que a documentação já foi providenciada e aguarda ansiosamente a resposta.  Disse que assim que começar a receber o benefício, pretende dar uma pausa na correria, mas o caminhão continua nos planos. “Se tudo correr bem, vou voltar para minha cidade, ficar perto da família e trabalhar na região, de segunda a sexta-feira”, comentou.  Jandir afirmou que passou boa parte da sua vida dentro de um caminhão, por isso não é fácil deixar a profissão de uma hora para a outra. “O lado bom é que tenho saúde para dirigir até os 70 anos”, concluiu.

Outro veterano, João Batista Oliveira, tem relação semelhante ao do colega. Também gaúcho – de Porto Alegre – disse que está há quase 40 anos atrás do volante, mas o cansaço ainda não é muito visível. Afirma que do caminhão, o sentimento é de gratidão. “Nosso salário é pouco, nossa vida é sofrida, mas é um vida diferente. Na estrada conhecemos muita gente e vários lugares. Eu, por exemplo, conheço parte do Brasil e de vários países da América do Sul, graças ao meu trabalho. Ser caminhoneiro é um vício”, admite.

A vida é sofrida e o salário é pouco, mas é uma vida diferente, destaca o veterano João Batista Oliveira, que pretende continuar na estrada mesmo após se aposentar

João Batista disse que o momento da parada está próximo, já esboçou vários planos, mas por enquanto nenhum foi levado adiante. “Estou com 60 anos, mas minha cabeça e saúde são de 30. A aposentadoria ainda demora um pouco”, garantiu. Ele acrescentou que uma hora terá de parar, mas questiona se vai se adaptar ao novo estilo de vida. “Muitas vezes o motorista não suporta, entra em depressão e até morre.  Minha ideia é aposentar e fazer pequenas viagens, apenas uma ou outra um pouco maior”, completou.

Enquanto uns estão prestes a “pendurar as chuteiras ou mesmo tirar o pé”, outros estão voltando para o trecho. Este é o caso de Varlei Rodrigues,  71 anos de idade e 50 de estrada. Sua história com caminhões com caminhões começou na década de 60 e o que era uma admiração de criança se tornou profissão. “Trabalhei muito, passei bons momentos com caminhão e quando me aposentei achei que tudo estava acabado, mas alguns anos depois fui obrigado a voltar a trabalhar”, contou, explicando que o dinheiro da aposentaria ser muito pouco para sobreviver. “ O jeito foi voltar para estrada, porque não tenho opção”, desabafou.

Aos 71 anos de idade, e aposentado, Varlei Rodrigues parou de dirigir caminhão, mas voltou porque não conseguiu sobreviver apenas do dinheiro da previdência

Apesar do descontentamento com sua condição na profissão, Varlei ain­­­da tem o que comemorar. “Sou autônomo, não tenho rota, transporto vários produtos no eixo Centro-Oeste/Sudeste. Uma das coisas mais gratas, que ainda despertam boas sensações é o prazer de conhecer novos lugares todos os dias. Isso é bom e vai deixar saudade”, confessou.

A reportagem na região de Ron­donópolis estava praticamente fechada. Bons personagens e boas his­­­­­­­­tórias. Os ingredientes já renderiam uma boa matéria, mas ao lado do carro da reportagem, preenchendo um caderno de palavras cruzadas estava  o carreteiro Antônio Ramos Draghichevisk Duarte.

Ao contrário de dezenas de colegas que aguardavam liberação de frete com certo estresse, o carreteiro sul-mato-grossense, de 72 anos de idade não demonstrava pressa. Tranquilo, sua preocupação no momento era resolver uma palavra cruzada, quando aceitou participar da reportagem.  Em sua biografia de profissional da estrada, 45 anos experiência, disse que viveu dois acidentes graves e um assalto.

Aposentado há 10 anos, Antônio Duarte, disse que às vezes viaja com o caminhão do seu filho, tanto para ajudar o rapaz quanto para rever os velhos amigos da estrada

Disse ser um grande conhecedor do Brasil, do Oiapoque e o Chuí e já passou dirigindo por todas as capitais. Há quase 10 anos aposentado por idade, voltou para o trecho e diz que só fez isso porque e o caminhão é do seu filho.  “Faço apenas algumas viagens, não quero mais ficar longe de casa. Além de ajudar meu garoto, pego a estrada algumas vezes para rever os amigos”, garante.

Para Antônio, muitos dos seus companheiros já poderiam ter deixado essa rotina se os fossem beneficiados com regras diferenciadas de aposentadoria. “É um absurdo alguém trabalhar 30, 40 anos e aposentar com novecentos reais. Muitos trabalham no sacrifício., e a única alternativa para ganhar um pouco mais e ajudar a família. Isso é um crime”, finalizou.