De um lado a oportunidade de gerenciar o seu próprio negócio e tentar sobreviver com todas as despesas da atividade que recaem sobre o carreteiro autônomo, como combustível, manutenção do caminhão e pedágio entre outras. Do outro, o trabalho com carteira assinada e as pesadas jornadas de trabalho em troca da garantia do salário mensal. Qual a melhor opção? A dúvida existe para boa parte dos motoristas, porém escolha certa pode depender também das prioridades pessoais de cada profissional

Por Daniela Giopato    

Antigamente, ser autônomo era o sonho da maioria dos motoristas que estavam começando na profissão. A sensação de liberdade, de poder decidir a rota, locais de parada e horários eram os principais atrativos para se ter o próprio caminhão. Porém, as diversas mudanças ocorridas no setor de transporte através dos anos, levou muitos autônomos a pensarem e até trocarem a suposta liberdade por um emprego com carteira assinada. Afinal, quem trabalha registrado conta com salário fixo todo mês, direitos como 13º salário, férias anuais e plano de saúde, entre outros benefícios. Porém, a jornada de trabalho é determinada pela empresa, o que muitas vezes pode significar cargas horárias puxadas.

Por outro lado, o motorista que opta por ter o seu próprio caminhão pode prestar serviços para uma ou mais empresas sem vínculo empregatício, mas é o responsável pela parte operacional e administrativa do seu negócio. Tem horários flexíveis durante as jornadas diárias; flexibilidade sobre dias e horários de trabalho, de aceitar e recusar cargas, porém, em contrapartida, não conta com salário fixo e tem de arcar com os custos do diesel, pedágio, alimentação e manutenção do caminhão, entre outras obrigações.

Na teoria parece ser fácil escolher, mas na prática a melhor opção não existe, pois tanto o motorista empregado quanto o autônomo têm compromissos e dificuldades, assim vai depender de cada profissional, de sua forma de trabalho e como ela se adéqua às suas prioridades pessoais. Pelo menos é o que diz Jamil Ferreira Lourenço, 60 anos de idade e 33 de profissão, de Marataízes/ES. Autônomo, ele acredita que as duas condições apresentam vantagens e desvantagens, por isso é preciso estar bem atento na hora de escolher. “No meu caso, a possibilidade de poder faturar mais é uma das vantagens. O empregado tem garantias, mas recebe sempre o mesmo valor. Dependendo da minha organização e empenho, consigo aumentar o meu faturamento. Outros benefícios são a liberdade planejar a viagem e conhecer lugares diferentes e sem muitas cobranças”.

A opção profissional precisa ser consciente em relação às dificuldades de trabalhar por conta. O valor do frete, por exemplo, nem sempre é justo, alerta Jamil Ferreira

Jamil alerta que, como toda opção profissional é preciso ter consciência das dificuldades na hora de escolher trabalhar por conta. “Os valores de frete nem sempre são justos e todas as despesas são por nossa conta. Mas não posso reclamar, pois criei meus filhos e conquistei uma casa sempre em cima do caminhão”. O carreteiro comenta que as tecnologias existentes hoje facilitaram a vida do motorista autônomo. Ele destaca os aplicativos de frete, que em sua opinião encurtam a distância entre o embarcador e o motorista. “Hoje ficou fácil conseguir frete. Basta acessar esses aplicativos e escolher a opção que melhor se encaixa no meu perfil. Sei que a profissão não é um mar de rosas, mas é o que sei fazer e pretendo continuar até Deus me permitir”, finalizou.

Antigamente, o faturamento do autônomo era muito melhor, não havia tantos pedágios nas estradas e o valor do diesel era mais baixo, comentou Claiton Cesar

Outro motorista autônomo de Marataízes/ES, Claiton Cesar, 36 anos de idade e 16 de estrada, vem de uma família de motoristas. Ele começou a dirigir caminhão pela paixão e disse que ser autônomo é bom, porém antigamente o faturamento era bem melhor. “Quando comecei na profissão, não havia tantos pedágios  nas estradas e o valor do diesel não tão alto. O frete foi sempre o mesmo, porém sem esses custos e me sobrava mais no final do mês”, contabilizou. Claiton explicou que de oito anos para cá a situação começou a ficar mais difícil para os autônomos por conta do crescimento dos custos. “Hoje, os empregados têm como vantagens a segurança do salário e não ter de arcar com os custos”, exemplificou.

Com a experiência de quem já rodou por todo o Brasil, exceto os Estados do Acre e Roraima, o autônomo Mauro Josi de Andrade, de Duque de Caxias/RJ, 64 anos de idade e 30 de profissão, trabalhou como empregado até 2008, quando decidiu deixar a empresa e investiu em seu próprio caminhão. “O motivo principal foi ter maior liberdade de escolher meu roteiro, porém, as coisas não são bem assim, porque apesar de ter esse lado positivo, existe a questão do frete baixo e os gastos para transportar”, observou.

Mauro de Andrade trabalhou como motorista empregado até comprar seu próprio caminhão, em 2008, com a expectativa de ter mais liberdade

Caso tivesse de dar um conselho para quem está iniciando na profissão, ele diria para ser autônomo, porém com algumas condições. “Para ter sucesso, tem de começar com um bom caminhão e frete garantido. Caso não tenha essas duas possibilidades é melhor ser empregado”, aconselhou, acrescentando que para ser dono do próprio veículo é preciso coragem e saber administrar o negócio. No seu caso, atualmente ele trabalha como agregado.

Em situação oposta aos colegas está Helanos Leão, de São Paulo/SP, 45 anos de idade e 20 de profissão. Empregado desde o início da carreira, garante que as principais vantagens dessa relação empregatícia são a isenção de custos como pedágio e diesel e receber mensalmente um salário. No entanto, observa, o empregado é muito cobrado e obedece a uma jornada de trabalho muitas vezes exaustiva. “Temos de dar resultado, fazer boa média de consumo. Além disso somos monitorados em todas as viagens”, explicou.

Helanos Leão reconhece as vantagens de trabalhar como empregado, porém lembra que existem cobranças e jornadas de trabalho exaustivas, além de ser monitorado e ter de fazer boa média de consumo do caminhão

Em sua opinião não existe certo e errado quando o assunto é decidir ser autônomo ou empregado. O que deve ser levado em conta, afirma, são as oportunidades. Ele contou que tem um filho autônomo que transporta bobina dentro de São Paulo e se comparar o faturamento deles é quase o mesmo. “A diferença é que a jornada dele é bem mais tranquila, pois ele dita o ritmo de trabalho. Mas ter um caminhão exige responsabilidade e bons contatos para manter uma boa rentabilidade todo mês”, explicou.

Na ocasião da reportagem, Helanos viajava com o filho de 16 anos, Alisson, que também pensa em ser motorista. “Claro que eu queria que ele escolhesse outra área, mas em um País onde nenhum profissional é valorizado, fica difícil justificar a mudança. Eu digo para ele que a profissão não é ruim, mas tem que gostar para enfrentar as dificuldades e se destacar”, finalizou.

Já o mineiro de Sete Lagoas, Fábio Pereira Passo, 35 anos de idade e 17 de estrada, acredita que diante da situação do País, ser empregado é uma boa alternativa. “Fico tranquilo por ter um salário garantido todo mês e não precisar arcar com o alto preço do diesel e de outros custos do transporte, como pedágio, pneus e o frete baixo”, explicou.

Fábio Pereira Passo acredita que diante da situação do País, trabalhar como motorista empregado é uma boa alternativa, porque há garantia do salário

Por outro lado, Passo reconhece que o autônomo pode gerenciar o seu próprio negócio e ter chances de crescer, caso seja bem organizado e tenha um bom equipamento.  “Se eu fosse dar um conselho para quem quer começar agora, diria ao motorista para escolher a condição de autônomo somente se ele tivesse um caminhão novo e garantias de frete. No meu caso confesso que ando um pouco cansado da profissão, que na minha opinião é muito sofrida e sem valorização”, finalizou.

Outro carreteiro que atua como empregado é Juarez Pereira, 32 anos de idade e oito de profissão, de Linhares/ES. Assim como seus colegasde profissão, ele também defende que atualmente as grandes vantagens de trabalhar com registro em carteirasão  a garantia de manter um salário fixo todos mêses, não ter nenhum tipo de despesa e poder tirar férias. “Nesses aspectos, realmente é muito bom trabalhar em uma empresa. Temos estrutura, mas existem as desvantagens da carga horária”, lembrou.

Juarez Pereira justifica que prefere trabalhar como empregado porque tem salário fixo e férias nenhum tipo de despesas com o caminhão

Do seu ponto de vista, a maior vantagem em ser autônomo é poder traçar a própria rota, fazer seu horário e também ter valor recebido variado. “O motorista que tem um caminhão bom e frete certo consegue fazer o seu próprio salário. Mas, mesmo assim, acredito que para quem pensa em começar hoje na profissão, o mais indicado seja ter carteira de trabalho assinada”, opinou.

ALÉM  DE  SABER  DIRIGIR

Para quem pensa em ingressar na profissão, antes de decidir entre ter o próprio caminhão ou trabalhar para alguma empresa é importante estar consciente de todas as dificuldades e se preparar para ter sucesso.

Cursos e treinamentos – É importante estar atualizado e realizar cursos que abordem Direção Defensiva, Logística e Atendimento a Clientes.

Negociar – No caso dos motoristas que optam em ter o próprio caminhão, é importante avaliar o valor do frete oferecido. Para isso deve registrar todos os gastos diretos e indiretos de uma viagem para negociar o frete de maneira correta. Entre os itens a serem levados em consideração estão a rota, combustível e alimentação, manutenção e depreciação do veículo. Aceitar qualquer valor pode levar o motorista ter prejuízos.

Descanso – Apesar dos prazos apertados de entrega, o motorista deve descansar. Um bom período de sono após uma jornada de trabalho ajuda a seguir viagem com segurança. Passar noites sem dormir e fazer uso de inibidores de sono (os populares rebites) prejudicam a saúde e aumentam o risco de acidentes. Nos períodos de pausas é importante relaxar, fazer uma caminhada, alongamento, se alimentar e se preparar para retomar a viagem