Valores da tonelada de grãos transportada em Mato Grosso – região de maior produção de soja de País – não cobrem os custos da operação, principalmente em razão preço do óleo diesel. A situação é mais complicada para os autônomos

Por Erik Valeriano

Fotos: Roger Andrade

Milhares de caminhões rodam pelo Centro-Oeste brasileiro carregados com os últimos grãos da safra de soja 2017/2018.Se as estimativas da Instituto Brasileiro de Geografia de Estatísticas (IBGE) a produção deverá chegar a marca de 112,4 milhões de toneladas. Em Mato Grosso, maior produtor de grãos do Brasil, a expectativa é para colheita de 30 milhões de toneladas. O número expressivo, com pequena queda de 2,2 % em relação 2017, gerou grande expectativa no setor de transporte. Mas até o final do mês março não se confirmou.

O Carreteiro desembarcou em Rondonópolis, capital do bitrem e ou­viu de vários profissionais da estrada que o momento ainda é de muito trabalho, mas com poucos ganhos. O autônomo Luiz Carlos Valentim, 55 anos e 14 de estrada contou à reportagem que durante a safra deste ano conseguiu aumentar o rendimento em 10%. No entanto, o lucro acabou engolido pelas seguidas altas do óleo die­sel, que em 2017 subiu 9,01% pela média nacional. Percentual bem acima da inflação do mesmo ano que, segundo Banco Central, ficou em 2,78%.

Luiz Carlos Valentim disse que conseguiu aumentar o ganho em 10%, mas o lucro foi engolido pelos aumentos do preço do óleo diesel que ultrapassaram a inflação

“Esperávamos um frete melhor, que possibilitasse pagar as perdas com o diesel. Mas não aconteceu e agora trabalhamos no limite. Ainda consigo alguma coisa por que meus fretes são curtos”, disse Valentim. Ele disse que mora em Várzea Grande/MT e atualmente só faz viagens dentro do Estado. “Ainda é possível sobreviver, mas estou com receio do restante do ano, quando o frete costuma despencar”, concluiu.

A preocupação com o restante do ano incomoda também o carreteiro Júnior Burille Marcon, gaúcho de 26 anos, morador da cidade de Arvorezinha/RS. Há pouco mais de 5 anos na profissão, ele afirma que nos últimos 3 anos as viagens entre os Estados do Rio Grande do Sul e Mato Grosso estão cada vez menos rentáveis. Para Marcon, o frete reagiu o que se esperava, mas o problema foi o preço do combustível, que na sua opinião extrapolou.

Este ano o valor do frete reagiu, estão pagando um pouco mais pela tonelada transportada, mas essa situação só seria relevante se o preço do diesel parasse de aumentar, comentou Junior Burille

Contou que esse ano estão pagando em média R$ 3,50 por quilômetro rodado contra R$ 3,00, em média, ano passado. “Essa situação seria algo de relevância se o diesel parasse de subir. Mas não há jeito, porque todo o mês tem reajuste. Ficamos asfixiados”, relatou. Motorista empregado, ele destacou que carreteiros autônomos não conseguem pagar o financiamento do caminhão. “E quem trabalha como nós sobrevive apenas para comer e fazer poucas coisas”, desabafou.

Na ocasião, o carreteiro mostrou à reportagem seu rendimento bruto com o caminhão nos últimos 30 dias, um total R$ 30 mil, mas a sua comissão do foi de de apenas 13%, menos de R$ 4 mil. “Para garantir de fato um bom rendimento, o frete teria que ser pelo menos R$ 1,00 a mais por quilômetro rodado. Assim poderia melhorar muito, mas pelo visto isso não vai acontecer em 2018. Vamos passar mais um ano no vermelho”, lamentou.

As queixas de Marcon foram endossadas pelo também pelo colega gaúcho Cleiton Toigo, 36 anos de idade e sete de volante. Durante o período de safra ele costuma percorrer as estradas da região Centro-Oeste, e diz que não enxerga grandes perspectivas para 2018. Disse à reportagem de O Carreteiro que dentro de pouco tempo somente as transportadoras de grande porte conseguirão viabilidade econômica para continuarem na estrada.

Motorista empregado que roda pelas estradas do Centro- Oeste, Cleiton Toigo disse não ter grandes expectativas para 2018 e fala das dificuldades do autônomo

Em sua opinião, a profissão poderá acabar nos próximos anos para o autônomo se nada for feito. Explicou que a “turma” que trabalha por conta está no vermelho e aqueles que estão com um caminhão apenas não conseguem pagar a despesas do veículo. “É manutenção do motor, suspensão, pneu e o óleo diesel mais caro do que nunca”, relatou.

Toigo disse também que quem consegue manter dois caminhões rodando ainda respira, embora com grande dificuldade. “Eu mesmo fui au­tônomo por dois anos e não consegui me manter. Era só conta chegando e nada de conseguir pagar. Agora, como empregado, ao menos consigo sal­dar meus compromissos”, finalizou.

Além de um frete cujo valor não agrada, combustível com preço elevado e estradas em péssimas condições, os motoristas comentaram sobre o excesso de veículos na pista como também um agravante para o setor. Luiz Carlos Valentim, por exemplo, disse que tem caminhão demais nas estradas. Credita o fato à facilidade de financiamento para a turma do trecho, mas faltou planejamento sobre como como esse pessoal conseguiria trabalho e renda para pagar a conta.

Acrescentou que o setor inchou muito nos últimos 5, 6 anos, porque muita gente comprou caminhão e agora está sobrando veículo. “Com veículos aos montes, ninguém paga muito mais do estamos vendo hoje. Do jeito que está, o valor do frete não vai subir nunca para um bom patamar”, justificou. Valentim finalizou dizendo que produtos demais no mercado provocam deflação dos valores e isso é o que está acontecendo com o trabalho dos carreteiros. “Vai ser muito difícil reverter esse quadro”, concluiu.

O carreteiro paranaense Décio Miranda, 50 anos e 20 de estrada, lembra que o setor de transporte  carga passa por um ciclo crítico que já dura mais de 5 anos. Autônomo há 18 anos, ele disse que o valor do frete  este ano foi satisfatório no pico da safra, mas durou poucos dias e não atendeu a categoria. Admite que chegou a ser melhor que no ano passado, mas caiu rápido e reconhece que mesmo sendo um pouco mais baixo daria para sobreviver. “Mas quem suporta bancar combustível com altas seguidas, a mecânica do caminhão, pneus e financiamento, questionou.

O autônomo Décio Miranda contou que o valor do frete foi melhor no pico da safra, mas durou poucos dias e não chegou a atender as necessidades da categoria

Em sua opinião, essa situação só vai mudar com a união de todos os motoristas. “É parar tudo e cobrar do governo uma solução, foram eles que nos colocaram nesta situação”, desabafou. O carreteiro disse ainda que está decidido a mudar de ramo, ficar longe das estradas. Lembra que quando começou a trabalhar por conta própria trocou de caminhão duas vezes em quatro anos. “Hoje é impossível. Vou procurar outro meio de sobrevivência”, afirmou.

Para Weberthi Oliveira, a remuneração da safra melhorou bastante. Ele destacou que a rota Porto Velho – Mato Grosso tem dado um fôlego para os motoristas

Alheio às lamentações dos colegas, o estradeiro Weberthi Oliveira de Castro, 38 anos de idade e 20 de experiência em rodovias, avalia que sua situação é uma exceção entre grande parte dos colegas de profissão. Motorista empregado, ele garantiu que a remuneração durante safra 17/18 melhorou consideravelmente. Afirmou que a rota de Porto Velho (RO) até Rondonópolis tem rendido fôlego extra para o pessoal do trecho. “A safra em Rondônia está muito boa. Lá eles precisam de muitos caminhões para escoar a soja até Mato Grosso. Eu  mesmo só paro para dar uma descansada no corpo e logo em seguida volto a pegar a estrada. É preciso aproveitar o momento”, finalizou.