Queda no volume de mercadorias transportadas, defasagem do valor do frete e alta do preço do diesel, entre outros custos fixos, reduziram o ganho dos motoristas e produziram uma nova realidade, na qual nem mesmo o controle detalhado de todos os custos da operação tem sido suficiente para garantir maior rentabilidade, e reduzir a queda no faturamento

Por Daniela Giopato

O motorista de caminhão está cansado de saber que uma boa negociação de frete garante um faturamento mais rentável no final do mês. Além disso, sabe também que o controle dos gastos com combustível, pedágio, manutenção, depreciação do veículo, alimentação, entre outros custos que envolvem a operação de transporte, o ajuda a avaliar, com maior clareza, se o valor oferecido por um determinado frete realmente vale a pena.

Nos últimos três anos, com a estagnação da economia e a consequente redução drástica na oferta de carga a ser transportada, que também trouxe a desvalorização do valor do frete, aumentou também a necessidade de o carreteiro ter maior controle dos seus custos. Isso porque, em contrapartida, o preço do combustível e demais custos aumentaram significativamente, tornando a situação cada dia mais difícil para a atividade.

A solução encontrada por Nélio Barbosa para sobreviver neste momento difícil foi fazer viagens só em rotas mais curtas

No entanto, a negociação de um valor tido pelo motorista como justo para um determinado frete não é tão simples e nem fácil, conforme conta o autônomo de Contagem/MG, Nélio Barbosa Silva, 38 anos de idade e nove de profissão. “Tem sido um desafio cada vez maior se manter na profissão e para tentar driblar esse momento difícil passei a viajar somente em rotas curtas”, explica.

Diz que numa viagem entre São Paulo a Belém recebia R$ 12 mil reais, porém, com o preço do diesel na época em torno de R$ 1,69 o litro, seu faturamento caiu. “Este ano, o mesmo trecho passou a valer R$ 9.400 e com o combustível a R$ 3,00 o litro. Está pra­ticamente impossível controlar as contas diante dessa nova proporção de ganho”, comenta. A solução encontrada por ele foi deixar as vi­agens longas, por não valerem a pena.

“É muito gasto para pouco frete. Estava ficando sempre no prejuízo”, justificou. Além do valor defasado, abaixo das expectativas, existem empresas que nos adiantam 60% do valor total do frete e os outros 40% ficam a critério deles decidirem o dia do pagamento. “Eu, por exemplo, tenho dois saldos a receber, um de R$ 2.100,00 e outro de R$ 300,00, mas o que fazer? ” É uma falta de respeito e comprometimento com o carreteiro”, lamenta.

Apesar de todas essas dificuldades, o carreteiro diz estar otimista, pois há cerca de dois meses conseguiu carregamento fixo para uma empresa e se encontra mais tranquilo e com expectativa de que as coisas estão começando a melhorar para ele. “Estou me reorganizando novamente, comecei a fazer planilha e a equilibrar as minhas contas”. Uma das medidas que Nélio diz estar em andamento é arrumar seu caminhão e deixá-lo com a manutenção em dia, item que ficou um pouco atrasado durante o período mais difícil. “Depois vou comprar roupas novas”, brinca.

Antônio de Andrade diz que do jeito que a situação está não vale a pena rejeitar frete, mesmo sabendo que não vai valer a pena

A mesma expectativa não é vivida ainda pelo baiano Antônio de Andrade, 53 anos de idade e nove na profissão. Em sua opinião, “do jeito que as coisas andam temos que aceitar o que aparece e não dá para ficar dispensando mesmo sabendo que as vezes realmente não vale a pena”. Ele transporta terra do Interior de São Paulo e dá um exemplo do quanto a queda no valor do frete pesou para ele. “Em um percurso curto, de 16km, já cheguei a receber R$ 300,00. Descon­tando as despesas me sobravam uns R$ 210,00. Hoje recebo R$ 180,00 e me sobra R$ 80,00. Não dá para selecionar frete e sobreviver”, reclama.

Quando questionado se costuma anotar quanto recebe e quanto gasta, Antônio sorri e diz que já foi mais organizado, mas atualmente prefere não anotar para não “passar raiva”. “Se eu anotar tudo vou desanimar ainda mais, pois tenho consciência de que o que ganho não dá para manter o mesmo padrão. Então, o jeito é economizar onde dá”, diz. A manutenção do caminhão, por exemplo, tem ficado de lado, fazendo apenas a corretiva, quando alguma coisa quebra. “Antes eu fazia revisão a cada viagem, mas agora não sobra nem para o pneu. É entregar para Deus e seguir em frente”, conforma-se.

Com queda de 40% no valor do frete, revisão e troca do óleo do motor do caminhão não estão mais em dia, afirma Amilton Lemos

Situação idêntica é a de Amilton Lemos dos Santos, 52 anos de idade, de Itapetinga/BA. Há mais de duas décadas na profissão, ele diz que gosta muito do que faz e por isso está aceitando todo tipo de frete. Quanto à manutenção do seu caminhão, admite que não tem dado a devida atenção. Cortou a revisão mensal e muitas vezes até mesmo a troca de óleo lubrificante do motor não está sendo feita no devido tempo. Isso tudo porque seu faturamento caiu 40% nos últimos dois anos. “Parei de controlar minhas despesas para não ficar mais desanimado ainda”, afirmou.

O engenheiro Antônio Lauro Valdivia Neto, especialista em transporte e assessor da NTC & Logística, concorda que com a crise estabelecida a pressão seja grande para aceitar qualquer valor de frete, principalmente para os motoristas de caminhão que estão com dívidas e pressionados pelo vencimento das parcelas. “O frete vem caindo desde 2014. O pior é que o volume de carga transportada também vem diminuindo e a receita de quem transporta anos despencou nos últimos três anos.

Lauro diz ainda que para aqueles que não têm dívidas é importante avaliar bem os fretes que aparecem e acei­tar somente aqueles que realmente trouxerem retorno positivo. Alerta que o motorista não deve se iludir com o volume de carga, porque até ho­je o que se viu foi transportador quebrando com excesso de carga e frete bai­xo, porém, quase nunca o contrário.

Apesar do valor alto, manutenção do caminhão é prioridade, observa Paulino Webber, que faz a rota Brasil – Chile

A situação difícil no transporte de carga afeta também motoristas que fazem a rota internacional, como, por exemplo, o gaúcho de Erechin, Paulino Webber, 67 anos de idade e 48 na profissão. Atualmente ele roda na rota Brasil-Chile e afirma que apesar de não ter de se preocupar com a negociação do frete, a situação de quem vive do transporte internacional está pi­or a cada dia. Segundo ele, o valor pago pelo frete é o mesmo de anos atrás, além de ter havido queda no  movimento, porém, as despesas aumentaram de modo significativo.

“Há oito anos me sobrava R$ 12 mil por viagem, agora, se me sobrar a metade estou no lucro”, diz Webber. Ele acrescenta que seu faturamento caiu 35% no mínimo, sem contar o tempo que fica parado em posto de serviço à espera de um novo carregamento. “Cheguei a permanecer parado mais de uma semana. Bem diferente de antes, quando chegava e saia.  Está complicado trabalhar e manter a família”, desabafou.

Comenta que cortou várias despesas, mas manteve a manutenção do caminhão na lista de prioridades, mesmo que represente um valor significativo no seu orçamento. “Não deixo de fazer a revisão, pois isso compromete a segurança. Disso eu não abro mão”. Webber reforça que tem muitos gastos na estrada, alguns deles podem até ser reduzidos, porém, como faz viagens longas, deixar a manutenção de lado pode resultar em muitos perigos.

Claudinei Goulart lembra que o valor do frete não é reajustado, mas o preço do diesel aumenta, tornando a situação muito difícil

Controlar os custos para sobreviver na atividade tem sido atitude também dos carreteiros recém-chegados à profissão. É o caso do paranaense Claudinei Goulart, 32 anos, de Coronel Domingos Soares, que está há cinco anos na estrada e já entendeu que mesmo com crise econômica, deixar de fazer contas antes de aceitar um frete pode gerar prejuízo.

Segundo ele, todas as suas despesas são anotadas, inclusive de manutenção do caminhão. “Mesmo assim está muito difícil encontrar carga que realmente vale a pena. O movimento está muito baixo e o faturamento caiu mais de 40%, é muito difícil de entender”. Para deixar mais clara a situação vivida pelos motoristas ele ressalta que valor do frete não sofre reajustes, mas o preço do óleo diesel aumentou de R$ 1,80 para R$ 2,80. “Situação bastante difícil”, conclui.

Valdemir Goulart destaca a disputa pelo frete e a importância de controlar os valores recebidos e gastos a cada viagem

Outro carreteiro organizado com as despesas e ganhos é Valdemir Martins Gomes, 36 anos de idade, de Taboão da Serra/SP e mais de 15 de profissão. Ele conta que a disputa pelo frete está cada dia maior e o valor muito baixo, por isso é importânte anotar os valores recebidos e gastos.

“Antes chegava a sobrar até 80% do valor recebido, mas hoje, no máximo 50%. O movimento caiu e as dívidas aumentaram e a conta não fecha”, explicou Martins. Ele fez questão de mostrar suas anotações para deixar mais claro a instabilidade do mercado. Em janeiro deste ano, por exemplo, ele faturou bruto R$4.200,00; fevereiro R$ 6.400. Em março foram R$ 2.790,00 e julho R$ 6.665,00. “Este ano está muito complicado fazer qualquer previsão. Antes existia uma certa frequência de valores recebidos entre quatro e cinco mil reais, sem contar no valor do diesel que era menor, fazendo o meu lucro ser bem maior”, contabilizou.

Valdemir explica que o momento econômico o tem obrigado a deixar de lado coisas importantes, tais como a manutenção do caminhão e lazer com a família. Na ocasião da reportagem ele estava fazendo a troca de óleo, com certo atraso, conforme admitiu. “Adiei o quanto pude, pois tinha outras contas para pagar. Esse mês serão mais R$ 280,00 a serem deduzidos do faturamento”, lamentou.  “O jeito é torcer para as coisas melhorarem e ir se adaptando à nova realidade”, concluiu.

Frete defasado Pesquisas da NTC apontam uma defasagem no frete cobrado da ordem de 30 a 35% se considerados os impostos devidos e uma margem de lucro razoável. O engenheiro Lauro Valdívia afirma que existe uma necessidade urgente de aumento do frete, pois o percentual de 4% é muito pouco para atender as necessidades do setor (cuja defasagem está em 30%). Ele explica que o setor sobrevive pagando o custo do envelhecimento da frota, porque o dinheiro que poderia ser investido na troca do caminhão está sendo utilizado para cobrir prejuízos dos motoristas.

Lauro enfatizou que por falta de pagamento, muitos estão perdendo o caminhão para instituição financeira, enquanto outros não conseguem carregar por não terem o nome aprovado pelas gerenciadoras de risco (por estarem devendo prestações), além de muitos caminhões parados por falta de dinheiro para a manutenção.

Ainda de acordo com Valdivia, nos últimos três anos o setor do trans­porte rodoviário de Cargas encolheu bastante e reduziu a oferta de carga. Isso aconteceu tanto pelo fechamento de empresas e abandono por parte dos autônomos quanto pela adequação do tamanho da empresa ao menor volume de carga (diminuindo galpões e o número de caminhões e de motoristas). “Isto significa que é possível vislumbrar uma da virada, porque a economia. mesmo em ritmo lento, está melhorando.

Na visão de Valdivia, até agora a faca e o queijo estavam nas mãos dos contratantes de transporte, mas agora já é possível enxergar o momento em que passarão para as mãos dos contratados. “E aí, a conta será alta para os contratantes, pois a crise foi longa e diminuiu muito a oferta de transporte. Isso significa que não teremos nem motoristas contratados nem autônomos para suprir a demanda”, finalizou .