Aumento de consultas por parte de clientes, idade da frota que já deveria ter sido substituída, promoções, valorização do usado na compra de novos modelo e aumento da confiança na economia, são alguns dos elementos que podem fazer a roda do segmento de caminhões voltar a girar, mesmo de modo tímido, ainda este ano

Por Daniela Giopato

Há anos, a renovação de frota tem sido tema de várias discussões abordando a idade avançada dos caminhões em operação e a dificuldade da troca de veículos por outros mais novos por parte de grandes, médios e pequenos transportadores. Segundo números do Registro Nacional de Transporte Rodoviário de Cargas (RNTRC) , divulgado pela Agência Nacional de Transporte Terrestre (ANTT), a idade média da frota brasileira (estimada em 1.671.637 veículos pesados) é de 13,5 anos. Com a crise econômica instalada no País e as altas taxas de juros, a queda nas vendas de caminhões tem sido a pior de toda a história já enfrentada pela indústria automotiva no Brasil.

Segundo números do Registro Nacional de Transporte Rodoviário de Cargas (RNTRC), divulgado pela Agência Nacional de Transporte Terrestre (ANTT), a idade média da frota brasileira (estimada em 1.671.637 veículos pesados) é de 13,5 anos.

O volume de emplacamento no primeiro trimestre deste ano, por exemplo, fechou com 26,3% abaixo do total registrado no mesmo período de 2016. Segundo a Associação Nacional dos Fabricantes dos Veículos Automotores (Anfavea), que reproduz números do Departamento Nacional de Trânsito (Denatran), foram 9.665 contra 13.110 unidades licenciadas nos primeiros três meses do ano passado.

No entanto, executivos das principais fabricantes do País acreditam em uma pequena movimentação dos clientes para renovação da frota. Isso se deve principalmente aos eventos como a safra e também devido a demanda reprimida há dois anos. Sem trocar seus caminhões, os frotistas recorreram à manutenção, opção quase que forçada, que elevou a adesão aos planos de manutenção oferecidos pelas montadoras.

Mas o respiro deve começar a surgir a partir do segundo semestre, acredita o diretor de marketing da Iveco para América Latina, Ricardo Barion. “A expectativa é de boas notícias. Talvez não aconteça uma renovação de frota, mas a substituição de alguns veículos que começam a ficar mais antigos na frota e mais onerosos em relação ao custo operacional do frotista”, aposta.

O executivo destaca que a confiança no mercado é essencial, pois fará com que os investimentos retornem e a roda da economia volte a girar. Em sua opinião a tendência é que os médios e grandes frotistas tenham de substituir alguns veículos nas suas frotas, portanto possíveis candidatos à compra de veículos novos. “Quanto aos autônomos, a restrição e a taxa de crédito ainda são restritivos a esse perfil, embora as projeções apontem para uma melhora neste ponto a partir deste ano”, explica.

Barion destacou também que a redução no volume de transporte deixou muitos caminhões parados e com baixa quilometragem, tornando-se interessantes para substituição dos modelos mais antigos que estão nas mãos de proprietários. “Isso aqueceu o mercado de usados, pois tornaram-se uma alternativa frente aos modelos novos”, lembrou.

Outra observação feita por ele é que muitas frotas já trabalham no limite, com veículos que prejudicam o custo operacional da empresa. “Em breve o mercado voltará aos patamares históricos de quatro caminhões usados para cada um novo vendido.

Na Iveco há expectativa de que a substituição de alguns veículos mais antigos já comece este ano

Victor Carvalho, diretor de vendas de caminhões da Scania no Brasil, explica que a partir de 2017 os contratos de Finame que foram iniciados na época do PSI (2012/2013) começam a terminar. Com isso, os grandes frotistas que compraram muitos caminhões naquela época devem  iniciar um processo de renovação de frota em menor escala, pois estão há mais de dois anos sem comprar e isso compromete a idade média de suas frotas.

Negociações envolvendo modelos usados fazem parte do dia a dia da rede Scania

“O negócio de usados já faz parte do dia a dia da maioria das negociações. Hoje, atuar em parceria com o cliente no processo de renovação de sua frota é fundamental. A Scania tem sua rede de concessionárias totalmente estruturada para receber os usados e ajudar o frotista, seja pequeno, médio ou grande, a trocar o seu usado por um caminhão zero km”, destacou o executivo.

O diretor de vendas de caminhões da MAN Latin America, Antonio Cammarosano, explica que em uma situação de mercado aquecido, economia e PIB em alta, as 170 mil unidades comercializadas em 2011, deveriam ser toda renovada, pois o prazo de 60 meses já venceu. Mas com a queda do PIB a frota se tornou ociosa e as empresas começaram um movimento pequeno de se desfazer dos veículos usados para aquisição de novos. O mercado de usados passou a representar 7% do mercado de novos, antes era de apenas 2 a 3%.

Na rede da MAN, os usados têm alavancado a renovação de frota

Cammarosano recorda que com o crescimento da economia entre 2008 e 2011, as empresas ampliavam a frota e se desfaziam dos veículos usados gradativamente. Acrescenta que a partir de 2011, com a economia estagnada, os frotistas passaram a investir menos na frota. Agora, em 2017, as empresas ajustaram a frota e iniciaram movimento para renovação e, com o crédito restrito, os usados passaram a entrar como parte de pagamento. O executivo cita ainda que a MAN disponibiliza plano de usados para incentivar a compra de veículo novo, dando como exemplo a negociação realizada com a Braspress, que utilizou lote de usados para renovar com os caminhões da marca Volkswagen.

O diretor comercial da DAF Caminhões Brasil, Luis Gambim, também comenta sobre a idade dos caminhões adquiridos durante o boom de vendas do setor, em 2011. Na ocasião foram comercializadas 170 mil unidades. “Esses veículos estão completando seis anos agora, ciclo natural de troca de grande parte das empresas de transporte, por essa razão esperamos que essas empresas comecem a renovar suas frotas este ano, visando principalmente um custo menor de manutenção”, analisou.

Com as empresas renovando suas frotas, os caminhões usados ganham um outro mercado, o qual está aquecido e tem crescido em relação ao de caminhões novos. De acordo com os dados da Fenabrave, no ano passado foram comercializados 6,8 caminhões usados para cada caminhão novo.

Na Mercedes-Benz, os usados também passaram a ter mais importância no momento da troca por um modelo mais novo, conforme explicou Ari de Carvalho, diretor de vendas e marketing caminhões. No ano passado, por exemplo, foram vendidos 700 caminhões zero quilômetros por intermédio da SelecTruck.

A DAF, que chegou recentemente ao Brasil, conta com a renovação de frota para crescer no mercado

Especializada em seminovos, a loja contribuiu para o aumento de 1,5% de participação da marca no segmento de caminhões. Em 2016 foram comercializados mais de 850 caminhões seminovos. Para 2017, a previsão é superar a casa de mil veículos. “Os usados assumiram um papel fundamental para ajudar o cliente na hora de renovar a frota, e nós temos condições de assumir esses veículos e oferecer condições para essa troca”, reforçou o executivo.

Ari Carvalho também tem expectativa positiva para o segundo semestre deste ano. “Todas as nossas regionais sinalizaram para um aumento de consulta, e isso é um bom sinal, embora o cliente esteja ainda inseguro em relação à situação econômica do País”, disse.  Carvalho cita ainda a importância de setores como o agronegócio (cana de açúcar e transporte de madeira) na retomada do mercado de pesados. “Diante de todas essas situações, acreditamos em melhora. Estamos otimistas e enxergamos pequenos sinais de que essa renovação venha a acontecer de fato”, concluiu.

Para Alcides Cavalcanti, responsável pela área comercial de caminhões Volvo, está havendo sim um movimento de renovação de frota, ainda que moderado, de parte de clientes ligados aos setores agrícola e industrial. “Os que estão buscando a renovação nesse momento são os grandes frotistas, acostumados a ter frota com idade média de 3 ou 4 anos. À medida que a frota envelhece, aumentam os custos de manutenção e por isso a renovação se faz necessária”, explicou.

Usados assumiram papel fundamental como moeda de troca na compra modelos novos da marca Mercedes-Benz

No caso da Volvo, os usados também têm sido utilizados como parte de pagamento em grande parte das negociações de compra de novos modelos. “Por isso é importante que o frotista mantenha seus veículos em bom estado, para que esteja sempre valorizado. Nesse sentido, a recomendação da Volvo é que os clientes optem pelos planos de manutenção, garantindo assim um caminhão sempre em boas condições e com um ótimo valor de revenda”, afirmou.

Cavalcanti acrescenta que as empresas comparam os custos de manutenção versus a prestação de financiamento e estão chegando à conclusão de que é mais interessante renovar. Ressaltou também que as novas regras do Finame para 2018, com a substituição da TJLP pelo TLP (índice que deverá ficar mais próximo da SELIC) é outro fator que poderá levar a uma renovação mais acelerada no segundo semestre.

Volvo identificou que os grandes frotistas, acostumados a operar com caminhões mais novos, já estão buscando a renovação

Na avaliação do gerente geral de marketing da Ford Caminhões, Oswaldo Ramos, existe uma demanda reprimida em alguns setores, porém, o fator crédito e o atual momento econômico indicam que essa renovação de frota deva começar somente em 2018. “Acreditamos que deva haver primeiramente a renovação nas áreas de coleta de resíduos e bebida. Outros setores dependem ainda da realização de novos contratos de trabalho para uma avaliação de necessidade de nova frota”, opinou, acrescentando que, de certa forma, o mesmo ocorrerá com os pequenos frotistas que necessitam de contratos que ofereçam maior rentabilidade.

O executivo destacou ainda que o mercado de usados tem conquistado maior espaço, porém o segmento também enfrenta dificuldades que afetam seu crescimento, principalmente devido à baixa oferta de crédito. “Entendemos que 99% das negociações de caminhões novos resultem da viabilização da equação de preços para fechar o negócio, e apenas em poucos casos há o envolvimento dos caminhões usados na transação comercial”, afirmou.

Na Ford, a crença é que a renovação deverá começar pelos segmentos de coleta e distribuição de bebidas

Ainda de acordo com Oswaldo Ramos, um negócio que tem chamado a atenção, apesar de ter maior preço, é o de locação de veículos pesados em diversos segmentos. Essa modalidade, segundo o executivo, tem sido uma solução paliativa para o negócio de caminhões no atual cenário econômico do Brasil.

(*) As entrevistas com executivos das montadoras, exceto da Ford, foram realizadas antes das denúncias de corrupção por um dos donos do Frigorífico JBS.