Na visão da Volvo, a tríade para a redução de acidentes com caminhão é formada por pedestres, motoristas e tecnologias embarcadas nos veículos 

Por Andrea Ramos, de Gotemburgo, Suécia

Que a Volvo Trucks é uma organização antenada quando o tema é tecnologia ninguém tem dúvidas. Ao longo de sua  história, a empresa desenvolveu soluções que até hoje fazem a diferença no trânsito  em diferentes partes do mundo. Entre elas estão o cinto de segurança de três pontos, airbag em caminhões, sistemas de segurança ativa e veículos autônomos, exemplos que a tornaram referência nesse âmbito.

Apesar dos dados alarmantes de 1,2 milhão de pessoas morrerem anualmente vítimas de acidentes de trânsito em todo mundo, o número de ocorrências nas rodovias os envolvendo caminhões está em queda. Muito dessa redução se deve às tecnologias de segurança embarcada nos veículos comerciais. Contudo, a segurança dos demais usuários vulneráveis (leia-se pedestres, ciclistas e motociclistas) ainda é algo a ser trabalhado.

Agora, o desafio do grupo sueco é desenvolver soluções que ajudem motorista e pedestres a se comunicarem. Mesmo que seja pelo olhar. Por essa razão, no que depender da empresa, é fato inegável que os dias dos caminhões e motoristas comuns  podem estar contados.

Para isso, o Grupo Volvo está desenvolvendo uma série de ações pelo planeta. A mais recente é o programa See and Be Seen (Veja e Seja Visto) , uma ação direcionada inicialmente para ciclistas com idade até 12 anos, mas que se estende  também ao público adulto, já que atende aos pedestres e condutores de veículos menores como motocicletas, por exemplo.

O programa tem por objetivo melhorar a compreensão sobre como os usuários das vias e os caminhões podem interagir no ambiente de trânsito, seja ele rodoviário ou urbano. “Com o ritmo acelerado do tráfego, é vital que o maior número de pessoas esteja ciente dos riscos e saiba como evitá-los”, explica Carl Johan Alm­qvist, diretor de segurança de tráfego e produto da Volvo Trucks.

Para especialistas, a redução de acidentes de trânsito só será possível com o envolvimento de motoristas, tecnologias e pedestres

Como o nome sugere, o programa Veja e Seja Visto quer envolver pedestres, ciclistas e motociclistas e ajudá-los a se tornarem visíveis para os motoristas de veículos maiores. Por outro lado, o programa visa o trei­namento‑ do motorista de caminhão e propõe que os veículos sejam equipados com sistemas de segurança cada vez mais inteligentes.

O pacote de treinamento do See and Be Seen se estendeu para organizações de segurança do tráfego que trabalham com adultos, e conta com materiais de apresentação, tais como filmes e exercícios práticos. Dentre eles, a inversão de papeis, no qual o condutor passa a ser pedestre e o pedestre vira o motorista do caminhão. Para Almqvist é inegável que reduzir acidentes só será possível quando pedestres, motoristas e tecnologias estiverem envolvidos.

Apanhado de soluções — Contudo, junto à comunicação entre pessoas no trânsito, a Volvo também contabiliza uma série de outras inovações que poderão ajudar a promover a dinâmica em prol da redução de acidentes. O Emergency Brake (freio de emergência) é um sistema que ajuda na segurança dos motoristas que trafegam atrás dos caminhões.

Desde 2015, uma lei europeia determina que todos os caminhões pesados de dois e três eixos devem ser equipados com freio de emergência a fim de reduzir os acidentes causados por colisões traseiras, as quais são responsáveis por um quinto de todos os acidentes rodoviários envolvendo caminhões.

Desde 2015, uma lei europeia determina que os caminhões pesados devem ser equipados com freio de emergência, para evitar acidentes de colisões traseiras

Essa legislação determina ainda que o sistema de travagem de emergência deve reduzir a velocidade do caminhão em 10 km/hora. Para o próximo ano, a velocidade será ajustada para 20 km/hora. Na opinião do diretor de segurança da Volvo Trucks, esses requisitos legais são muito baixos. “Se você estiver dirigindo a uma velocidade de 80 km/hora, quando o sistema de travagem de emergência for acionado será preciso baixar a velocidade muito mais do que 20 km/h para evitar colisão, sobretudo, se o veículo da frente estiver parado.

Por essa razão, o Emergency Brake vai além dos requisitos legais atuais e futuros. O sistema, que recebeu melhorias em 2012, é usado apenas se for absolutamente necessário. Na prática, se o caminhão estiver rodando a 80 km/h, ele pode cortar a velocidade a 0 km em cerca de 40 metros, sem comprometer a segurança do motorista e de quem estiver no entorno.

Para isso, o sistema funciona em quatro estágios: no primeiro, um sinal visual é emitido no painel e refletido no vidro para avisar o motorista. Se nenhuma medida for tomada, a ação se repete agregada a um sinal sonoro. E se mesmo assim não houver uma intervenção do motorista, automaticamente o sistema de frenagem reduz a velocidade do caminhão em 50%, chegando a pará-lo por completo se nada for feito. Contudo, quando o freio de emergência é acionado, as luzes de freio do caminhão e da carreta começam a piscar.

O sistema monitora os veículos da frente com a ajuda de câmeras e radares capazes de fazer a leitura mesmo com névoa ou neblina. Após mais cinco segundos, sem qualquer movimento do volante, ou outra reação, o freio de mão é automaticamente engatado como medida de segurança para evitar que o caminhão saia da inércia, caso o condutor esteja inconsciente. Vale ressaltar, ainda, que no Brasil o Emergency Brake chegou em 2009 nos caminhões da marca, recebendo tais melhorias a partir da linha 2014.

Volvo instala câmeras nos caminhões conforme o perfil da operação, e as imagens podem ser visualizadas no painel multimídia. Para Carl Almqvist, é vital as pessoas estarem cientes dos riscos e saberem como evitá-los

Veja e Seja Visto, frase que a Volvo usou para promover sua campanha de comunicação entre motoristas e pedestres e se encaixa perfeitamente para descrever uma nova solução da marca para promover a visibilidade entre motoristas e pedestres.

A Volvo começa a instalar câmeras que podem ser visualizadas pelo motorista no painel multimídia do veículo. Essas câmeras serão adaptadas no veículo conforme o perfil e necessidade de cada operação.

Em um caminhão rodoviário como FH e FM, por exemplo, a maior necessidade de visibilidade do motorista é ao virar com o caminhão a direita ou a esquerda. Por essa razão, nesses veículos, as câmeras estão instaladas nas partes laterais dos veículos. No Volvo FMX, a câmera é adaptada na parte frontal e traseira, pelo fato de haver muitas manobras na operação fora de estrada.

Além das câmeras, modelos urbanos como FE e FL (à venda apenas na Europa) terão versões produzidas em vidro na parte inferior da porta, a fim de melhorar a visibilidade do condutor nas operações urbanas. Uma maneira de garantir que o pedestre enxergue o motorista e entenda sua ação no volante.

Inteligência artificial— Recentemente, a fabricante apresentou no Brasil o caminhão VM 270 autônomo que opera no transbordo da colheita de cana-de-açúcar com o propósito de reduzir o pisoteamento dos grãos, já que possui um índice de precisão na direção de 2,5 centímetros.

Na Europa, a Volvo também possui caminhão autônomo atuando na mineração e na coleta seletiva de resíduos – neste, o desenvolvimento exigiu mais da engenharia da Volvo.

Diferentemente dos caminhões que operam em ambientes fechados como o VM na agricultura e o FMX na mineração, o FM para coleta seletiva atua pelas ruas de Gotemburgo, cidade berço da Volvo na Suécia. E por ele trafegar fora de um ambiente controlado é equipado com uma série de sensores que enxergam todo o trânsito em seu entorno e que são capazes de ajudar o veículo a trafegar e entender a hora de parar quando perceber um obstáculo, mesmo que repentinamente em qualquer direção.

“Conduzir um veículo comercial em uma área urbana, com ruas estreitas e pedestres ou ciclistas no entorno, naturalmente, impõe grandes exigências de segurança”, ressalta Almqvist.

São com essas exigências, transformadas em soluções tecnológicas, que a Volvo deu a sua colaboração para a redução de acidentes envolvendo veículos comerciais na última década na Europa, segundo relatório de segurança da Volvo Trucks 2017. No entanto, para o executivo da Volvo, o desafio agora é conscientizar transeuntes, e para isso, além da comunicação será necessário o desenvolvimento de mais soluções tecnológicas.