Embora haja expectativa de melhora a partir do segundo semestre deste ano, por parte de diferentes setores, na estrada o mês de janeiro terminou exatamente como foi 2016: volume muito baixo de cargas a serem transportadas – o qual causa longas esperas para contratar um carregamento – e valores pagos pelos fretes muito abaixo das necessidades dos motoristas empregados ou autônomos.

Com a mesma cara de 2016, sem cargas para serem transportadas, quem esperava mudanças no cenário já em janeiro teve certa decepção com o ano novo e já pensa se vale a pena insistir no negócio de caminhão ou partir para outra área.

Luiz Antonio fez apenas uma viagem em janeiro e viu suas despesas crescerem devido ao maior tempo esperando por carga

É o que já está fazendo Luiz Antônio Oliveira, 34 anos de idade e 14 de profissão, de São Luiz Gonzaga/RS, que trabalha como empregado e recebe comissão. “Vou avaliar como a situação vai ficar até o meio do ano. Se continuar do jeito que está penso em parar e procurar uma outra oportunidade de trabalho”, explica.

Em janeiro, Luiz fez apenas uma viagem. Quando conversou com a reportagem da revista O Carreteiro ele estava parado num posto de serviço da BR-116 havia duas semanas. Naquele momento, conforme disse, não havia qualquer previsão de conseguir uma carga de retorno para o Sul. “Fico muito mais tempo longe de casa e além da saudade da minha esposa e meus dois filhos os custos aumentaram muito”, reclamou.

Oliveira relatou que naquele dia gastou R$ 500,00 em compras no mercado para cozinhar na caixa do seu caminhão. Além disso, ele já acumulava despesas também com banhos, ao preço de R$ 10,00 em alguns postos. “Outro dia paguei R$ 12,00 num pão com manteiga e café. Isso é um absurdo”, comentou, acrescentando que a diária recebida da empresa não cobria todas as despesas na estrada e com isso seu salário sempre acaba sendo comprometido.

Baixa rentabilidade e insegurança na estrada levaram Dilberto Ribeiro a entrar num quadro de depressão que o afastou da atividade por um período

O carreteiro Dilberto Londero Ribeiro, 26 anos de idade e cinco de profissão, disse que em 2016 ficou até setembro afastado da empresa em que trabalhava, devido a problemas de depressão. No início de 2017 ingressou em uma nova empresa e voltou para a estrada. Ele explicou que o estresse da profissão, mais a baixa rentabilidade do caminhão e a falta de segurança o levaram a um quadro depressivo. “Tinha medo de ir para a estrada e não voltar mais. Foi terrível. Mas agora acabou. Tenho que trabalhar”, afirmou.

Em janeiro ele fez apenas duas viagens e disse ter se espantando com a situação do mercado, de fretes baixos e custos altos. Filho de caminhoneiro, Dilberto afirma que sempre gostou muito de caminhão e chegou a pensar que se aposentaria na profissão. “Mas, hoje vejo que está muito difícil se manter na atividade e ter boas expectativas”, lamentou.

Lembrou que há três anos a situação era um pouco melhor. Disse que fazia a média de seis viagens por mês e conseguia juntar até R$ 1000,00 por semana, mas atualmente mal consegue pagar as contas. “Faltam dois anos para minha esposa se formar em veterinária e até lá quero pensar em algum trabalho mais próximo de casa e de maior rentabilidade. Temos o sonho de comprar a nossa casa”, destacou.

O carreteiro José Ramiro Capeletti  diz que já viveu momentos mais críticos e acha que a diferença agora é o tempo que está durando esta crise

Outro motorista, José Ramiro Capeletti, 53 anos e 18 de profissão, de Ijuí/RS, também reclama do baixo movimento na atividade. Em janeiro deste ano ele disse que fez apenas uma viagem e admitiu não ter expectativa de melhora. “Estou bastante incomodado, pois não sabemos quando vamos conseguir carga de retorno”, disse bastante chateado na ocasião.

Diferente dos colegas, Capeletti não cozinha no caminhão e prefere fazer suas refeições em restaurantes e reclama que está ficando cada dia mais caro trabalhar na estrada. “Não vejo sinais de melhora. Para mim, 2017 será a mesma coisa que 2016, mesmo assim espero apenas que haja mais opções de fretes”, comentou.

Apesar das dificuldades enfrentadas, ele lembra que já vivenciou momentos mais críticos na profissão e acha que a diferença dessa e de outras crises é o tempo que está demorando para passar. “No início de 2009 cheguei a ficar parado durante 30 dias num posto de serviço esperando por carga. O pátio ficou lotado de caminhões e depois melhorou um pouco. Quem sabe 2017 seguirá no mesmo ritmo?”, disse esperançoso.

Cristiano Mees ficou parado por cinco meses em 2016, conseguiu um emprego para rodar o Brasil inteiro, mas quer voltar a fazer viagens curtas

Para o catarinense de Chapecó Cristiano Mees, 27 anos de idade e oito de profissão, 2016 foi um ano ruim para os profissionais comissionados, porque o valor do frete não acompanhou o aumento dos custos do transporte. “Isso realmente deixou a situação muito difícil”.

Outro momento duro enfrentado por Cristiano foi a perda do emprego no ano passado. Disse que ficou parado por cinco meses e quando conseguiu uma nova oportunidade teve de começar a viajar por várias regiões do Brasil. “Antes eu fazia rotas curtas, estava sempre em casa,  mas gora chego a ficar mais de 20 dias na estrada”, contou. Seu projeto para este ano é voltar a trabalhar em trechos mais próximos de Chapecó.

Com queda no faturamento entre 30 e 40%, o autônomo Antonio Zeferino não conseguiu em 2016 manter seu hábito de trocar de caminhão a cada cinco anos

Se para os motoristas empregados a situação está ruim, para os autônomos não é diferente. O gaúcho de Canoas Antônio Zeferino, de 54 anos de idade e 26 de profissão, de Canoas/RS, por exemplo, afirma que  2016 foi um ano muito fraco, pouca carga e sem valor de frete. “Meu faturamento caiu entre 30 e 40%”, avaliou.

Antônio diz que atualmente ganha apenas para pagar as contas e a situação não permite que o carreteiro sonhe em trocar de caminhão. “Eu costumava trocar a cada cinco anos, mas em 2016 não consegui, ficou inviável”, disse o autônomo esperançoso de que ainda possa haver oportunidade de fazê-la 2017. Se possível sua expectativa é de fazer um financiamento de 12 meses no máximo. “Mas do jeito que que o ano começou, não sei não”, pestanejou.

Para não ficar parado, Antônio está transportando fruta temporariamente. Essa alternativa o ajudou a não ficar sem carga neste começo de ano. “Já sou aposentado. Se as coisas não melhorarem não vou insistir na profissão. Vou vender o caminhão e ficar em casa ao lado da minha esposa. O problema será a falta que vou sentir da estrada”, brincou.

Nascido em família de motoristas, Maurício Lima Gomes trabalhou bastante em 2017 e diz que pretende seguir em frente e crescer na profissão

Já o carreteiro Maurício Lima Gomes, 34 anos e 15 de profissão, que faz a rota Mercosul, diz que trabalhou bastante em 2016 e está com boas expectativas para 2017. “Quero investir na profissão. Não penso em abandoná-la, pois só sei fazer isso. Sou de uma família de motoristas e ainda tenho esperança de crescer na atividade”, afirmou.

A expectativa de Gomes para 2017 é de comprar um caminhão e fazer rotas mais curtas para estar com a esposa e o filho de quatro anos a cada dois dias. “Quero mesmo é melhorar a minha qualidade de vida e ficar mais perto da família”, finalizou.

Por Daniela Giopato
Fotos: Alexandre Andrade